Jorge E. Leal
Pela floresta pululam seres estranhos. Destes bichos esquisitos sobram os ku-vermelhos que se espalham aos bandos em sua dança louca rumo ao vazio dentro de tudo; bizarro.
Também sobrevivem os ku-azul em meio a tantas e tamanhas hordas esquálidas de esdrúxulas criaturas.
São os ku-vermelhos que se espalham como gafanhotos vorazes em meio à plantação de milho, devorando tudo antes de partir. Assim como o toque de Midas, os ku-vermelhos têm o dom e o toque de merdas, verdadeira maldição dos Deuses.
E ainda, aparecem perdidos os ku-dourados, os verdadeiros seres iluminados perdidos no meio da floresta; sem saber o que se passa, tornam-se presas vulneráveis no caos, ficando em cima do galho, parados e apáticos, sem saber o que fazer ou para onde ir.
Mas, diante dessa invasão voraz, os ku-dourados, obrigados, começam a flutuar silenciosamente sobre os caules decepados do milharal. Sua luz mística queima, mas não cega o apetite dos bandos destrutivos.
À medida que o brilho se expande, os violentos ku-vermelhos estancam sua dança louca, hipnotizados pela claridade da luz que preenche momentaneamente o vazio da escuridão de suas existências.
Enquanto isso, os ku-azul observam calados do topo das árvores secas, estáticos como gárgulas de gelo, recuando para as sombras em busca da luz, como meras testemunhas. O silêncio reina e finalmente engole a floresta, transformando a terra devastada em um santuário estático, onde o tempo desiste de passar. Esquecendo-se completamente do passado de luta e glórias, tudo volta a ser como antes.